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Quarta-feira, Março 29, 2006
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As últimas semanas têm sido muito cansativas. Trabalhar, estudar e cuidar de casa tem deixado eu e o Thiago fadigados. Minhas aulas são segundas e terças e as dele terças e quintas, ficamos algum tempo juntos quartas e sextas, quando temos que dar uma geral na casa e dormir. E salve o fim de semana!
Mas também tem sido delicioso. Tenho aprendido muitas coisas na pós, com o Sérgio que é um grande professor, um grande cara e com a galera também.
Bom, não vou entrar em detalhes sobre as aulas, mas tenho que dizer que cada vez me fascino mais por Jornalismo Literário. Me fascino e acredito.
Tenho tido muito sono. Ter que chegar às 9 no trampo (sempre chego 9:15, 9:20...) e nos dias de aula chegar em casa mais de meia noite, tomar banho e comer alguma coisa...é foda, tem horas que não consigo me manter acordada na frente do computador. A sorte é que minha mesa fica de frente paras a parede. Tenho 40 minutos para ler o que quiser no trampo e agora tive que abandonar os meus para não dormir em cima do livro, e olha que o livro é dos bons.
Tirando o aperto de grana minha vida ta caminhando bem, obrigada. Viver com o Thiago é maravilhoso porque nos damos muito bem, nos ajudamos e curtimos muito o nosso lar. Temos conversado bastante sobre nossas aulas, trocando impressões, ele lê meus ¿exercícios¿ narrativos eu escuto sua empolgação sobre determinadas aulas. Eu falei pra vocês? A pós dele é em Jornalismo Cultural.
Queria falar de um monte de coisas...assisti, há um tempo, Capote, escutando de montão Antony & The Johnsons (ESCUTEM!!! Eu to falando sério!) e lendo ¿A Luta¿, do Mailer ¿ ainda vou escrever sobre tudo isso, eu prometo. Mesmo porque eu não engulo a descoberta de que todo mundo sabia que o George Foreman, o boxeador, o medalhista de ouro, que enfrentou o grande Ali na disputa pelo título dos Pesos Pesados em 1974 no Zaire (o mote do livro), é o mesmo George Foreman Grill. Não consigo mais nem ler o livro e pensar naquele negão gorducho e sorridente, não, ele não é o mesmo George ¿cara de mau¿ Foreman. Mas tudo bem, as coisas são assim.
pirofágica - 6:20 PM
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Sexta-feira, Março 10, 2006
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¿É tudo enrolação, você está ficando muito egocêntrico¿
Literatura sobre a cultura pop tem sido a bola da vez por essas bandas. Mas, bem, foda-se, não sei nem porque escrevi essa bobagem de ¿Literatura sobre a cultura pop...blá blá blá¿. O que eu quero mesmo dizer é que a leitura dos dois lançamentos da série ¿Iê iê iê¿ da Conrad gerou uma saudável discussão entre o casal.
A outra metade do casal leu primeiro, os dois livros: Reações Psicóticas ¿ Lester Bangs e A Ultima Transmissão ¿ Greil Marcus e, apesar de serem os próximos da minha lista, os comentários (do jeito que só ele sabe fazer) fizeram com que eu agilizasse o processo.
A verdade é que o Thiago, depois de ler o Bangs, torceu o nariz para o Marcus e como um bom namorado, segurou a onda, insistiu para eu ler para divagarmos sobre.
E eu li. Li com gosto. Os dois. Na seqüência.
Não vou ficar aqui falando que Lester Bangs nasceu não sei onde em sei lá que ano e que foi o maior ¿crítico¿ de música que jamais existiu. Vai pesquisar no google! Se quiser saber também que Greil Marcus é formado em não sei o que na puta que pariu e que foi o primeiro editor da principal revista de música de todos os tempos, a Rolling Stone, continue passeando pelo Oráculo.
O que eu queria mesmo era falar pro Thiago que tive uma leitura completamente diferente sobre o que o Greil Marcus escreveu sobre o Joy Division e o Ian Curtis.
Ta, esse texto ta parecendo piada interna, então deixa situá-los.
O ¿crítico¿ musical que escrevi aí em cima, com aspas foi pela desvirtuação do termo nos últimos tempos. Qual o crítico musical ou jornalista cultural, ou seja, lá quem for que tem culhão de encher a cara (encher a cara de verdade) com seu ¿herói¿ (primeiro que os heróis não existem mais) e debater por horas, em êxtase alcoólico, musical e oratório? O texto mais expressivo, que fica fácil na memória, é o da ¿entrevista¿ com Lou Reed. Todo mundo sabe que LB paga o maior pau pro Reed. O Velvet não se afastava da sua vitrola por muito tempo, e em um quarto de hotel debater incansavelmente sobre preferências musicais, drogas, drogas e preferências musicais, incluindo analise pessoal cínica de um com o outro. Então olha: Lester Bangs para Lou Reed: ¿Ok, vamos definir o que é decadência. Diga-me o que você acha que é decadência?¿. Lou Reed para Lester Bangs: ¿Você. Porque você costumava ser capaz de escrever, e agora só fala merda. Você não está antenado em música, você não está por dentro do que está acontecendo, você nem conhece os músicos ou quem está fazendo o quê. É tudo enrolação, você está ficando muito egocêntrico¿.
O que eu quero dizer é que dá um puta tesão ler os textos do LB porque eles passam esse tesão, foram feitos assim. A razão ta lá, mas ele é muito melhor com seu instinto filho da puta que faz com que em um mesmo texto você o ame ou o odeie pelo o que escreveu sobre o Jethro Tull.
É verdade, aquelas páginas fazem bater a nostalgia de que não há mais entrega para a música, não há paixão, é tudo comprado, plastificado e entregado na redação pronto e cheirando como papel novo. Mas, na boa, a minha opinião não importa, pelo menos neste momento, pode ser que eu mude de idéia daqui a cinco minutos. Recomendo muito o livro, o texto do Iggy...só o Lester Bangs mesmo pra me deixar emocionada com um texto daquele e tudo o mais, a morte do Lennon e a necrofilia que idolatra e gera venda e lucro, uma indústria em cima da mitificação. A morte de uma geração. A morte de Elvis, texto que me surpreendeu demais. A personificação da descoberta e um frenesi sexual de uma época. Mas oras, já to eu aqui falando e falando e esquecendo de falar do nosso amigo Greil Marcus.
A polêmica toda era essa: Lester é o tesão falando, Marcus é a academia. Algo como: fala com o sexo ou com a mente. Ridículas comparações e metáforas banais à parte, A Ultima Transmissão é um puta livro. Mas eu não vou mentir pra vocês. Não mesmo. Eu não sei de quem ele está falando, nunca escutei aquelas músicas e nem se quer vi a cara daquelas pessoas, e ainda sim achei um puta livro. Greil Marcus não tem, nem de perto, em seu texto, a poesia que Lester Bang tem em seus. Porque Bangs era um remanescente Beat e um gonzo de nascença e Marcus é um, digamos ¿intelectual¿ do rock n¿ roll.
A Ultima Transmissão traz o mérito de falar essencialmente sobre música e todo o contexto em que ela, naquele determinado momento, está inserida. Pra clarear um pouco (ou não) Greil Marcus era um divulgador do Situacionismo (eu, particularmente não consigo vê-lo como um situacionista, mas tudo bem) e em seus textos não era possível desvincular a música da geração e época no contexto histórico/social. O que torna seu texto muito interessante.
Enquanto eu lia liguei pro Thiago, mas não consegui falar com ele, em casa conversamos:
- Não acho que ele não sabia o que estava falando quando citou o Joy Division, ele tava ironizando...
- ahhh, não sei...
- Ele supervalorizou o New Order, mas sabia muito bem quem foi Ian Curtis...
- É, naquela época o deslumbre era outro, os anos 80 tavam chegando forte.
(lembramos do filme: A Festa Nunca Termina)
- Mas o livro é bom.
- É...
Sei que não o convenci tão fácil, mas sei também que ele acha o livro bom. O que aconteceu foi o seguinte: depois do show do Iggy Pop no Claro, começou o show do Sonic Youth e todo mundo ficou assim, com uma cara de... . As pessoas gostaram mesmo do show do SY, mas se tivesse sido em outra noite, ou até antes da apresentação do Iggy, elas teriam gostado muito mais.
Mas é foda, esse exemplo não serve pro Thiago, acho que a pessoa que mais gostou do show do Sonic Youth aquela noite foi ele.
pirofágica - 6:04 PM
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