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Segunda-feira, Junho 06, 2005
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"meninos ou meninas?"
os domingos normalmente são chatos para os
"solteiros", pelo menos pra mim, então, nada como uma
parada gay para se distrair e ver cores, muitas cores
e brilhos.
então, pra variar, estava disposta a ir, mesmo que
sozinha. o henrique ficou de ir, mas como minha
relação com partidos políticos não é lá muito boa,
depois que ele resolvesse as paradas com o dele, nos
encontraríamos. pelo menos foi o combinado.
descobri que o povo do trampo iria se encontrar ao
meio dia. fui. alguns foram. seguímos pra muvuca.
livres, leves e soltos, os "heterossexuais" colegas de
trabalho entraram totalmente no clima da nona parada do
orgulho glbt. eu, um pouco tímida ainda, apenas
observava.
depois de escutar vários sons trash dos 80, incluindo
ilariê, ô ô ô e tudo mais, fomos dar um rolê.
na hora dos discursos políticos não sobrou
praticamente ninguém. muitos chamariam o ato de
alienado, mas ninguém tava alí pra engolir aquele
discurso babaca e sem um pingo de criatividade de
sempre.
fomos dar um rolê, porque eu tava mesmo a fim de
dançar.
o dia estava lindo. se são pedro é mesmo quem manda na
porta do céu, o figura deve ser, no mínimo
simpatizante.
de repente aparece a elke maravilha e o povo do
trampo, mais animados do que qualquer gay da parada a
seguiu e...sumiram.
na boa, não achei tão ruim assim. acho que estou me
acostumando a ficar sozinha.
andei muito, com minha bunda protegida de qualquer
passada de mão por uma mochila incômoda ns costas, com
cometas e bastões de fogo, consegui chegar até o pátio
do masp. o lugar mais sossegado pra curtir.
putz grila, muita gente. de todo o tipo. famílias
inteiras, muitas crianças, casais de velhinhos. todo
mundo numa boa.
antes de chegar ao masp, sozinha, é claro que levei algumas
cantadas, principalmente quando me vi encurralada em
frente ao trio elétrico das "mulheres que amam
mulheres". zélia duncan, rita lee e cássia eller não
podiam faltar no repertório.
- quer vinho?
- não obriagada.
nada demais, só não bebo vinho com um puta sol na
cabeça.
aliás, baco estava realmente presente.
a bebida oficial parecia ser mesmo o bom e velho vinho
vagabundo.
finalmente no pátio do masp, esperando um telefonema
que não veio, fui pra fila do banheiro, eu e minha
mochila.
na fila a mesma pergunta:
- você gosta de meninos ou meninas?
- gosto de meninos.
- ah, eu também. já beijei meninas, mas gosto mesmo é
de meninos.
quando saí do banheiro, que só poderia ser unisex, ou
bisex, pra entrar no clima, vi umas gurias brincando
com cometas. resolvi tirar os meus da bolsa e me
juntar à elas, mas vi dois caras brincando com
malabares, um jogando para o outro. parei para
apreciar, é claro.
um deles olhou par mim e gesticulou com os malabares,
perguntando se eu não queria jogar.
respondi, também gesticulando, que não, só estava
admirando mesmo.
depois de um tempo começamos à conversar. os dois eram
argentinos, mambembes ou como é mais dito hoje:
malucos de estrada.
nos demos bem logo de cara, apesar de alguma dificuldade de comunicação.
um deles era mais falante, o Ale. cabelo comprido, com aqueles dreads comum entre os argentinos, daqueles só com o cabelo 'embrolado' mesmo, sem cera. vários piercings e alargadores como o o meu, nas duas orelhas. madeira, presente de um índio do mato grosso. para ajudar a lembrar dos sonhos, disse.
se apaixounou no mato grosso e em breve voltaria para lá, em busca de sua companheira. o outro, mais calado e mesmo sem querer tinha aquele ar de mistério fascinante, mas também, muito simpático.
caiu a noite e propus um fogo. foi lindo, eles com malabares, eu com o suíngue e aquela chama que muitos de vocês conhecem, regada a muita parafina líquida: sem cheiro nem sabor (olha a propaganda!).
sentamos para uma pausa com jah o que selou uma mini roda de 4 pessoas. é, sempre aparece alguém nessas horas.
uma fuigura que falava pelos cotovelos, mas muito simpática e agradável. estava com seu "companheiro" e a pequena jasmim, sua filha de menos de um ano.
conversamos sobre várias coisas, principalmente sobre viagens, literalmente galera. iriam voltar para o mato grosso, mas falei tanto do nordeste que tenho certeza de que uma sementinha ficou plantada entre aqueles cabelos rastafaris. falamos também de música, mas já estávamos tão loucos que não me lembro de muita coisa, não entendi muita coisa nesse momento da conversa também. mas vi o...putz, não lembro mesmo o nome dele...cantarolando "...tu no tiene la culpa mi amore..." mano chao.
saímos de rolê. no caminho compramos nosso vinho vagabundo e brindamos aos encontros.
já não tinha mais trios elétricos quando aparece Omar, o peruano.
jeito de "malandro" peruano. da Lapa do peru. com um sorriso malicioso para o meu lado.
disse que nacsceu em uma montanha no Peru, que há pouco saíra de lá e nunca tinha visto tantos gays juntos.
perguntou se eu "era normal" ou se gostava de meninas.
- bom, acho que os gays são normais, mas eu gosto mesmo é de meninos.
sabem, sempre me senti um pouco, ou muito, como eles. não só pelo gosto pela estrada, mas por "despreocupações" em comum. sempre que os encontro, bate um comichão e a vontade de largar "tudo", o meu "tudo" - cada um tem o seu, e cair na estrada de novo.
omar perguntou se eu já tinha trabalhado naquele dia. disse que não, o fogo foi apenas por diversão. me propos tramparmos aquela noite. ganharíamos 100 pilas (não entendi direito se ele já tinha algo fechado ou se iríamos batalhar por algo) e divídiríamos meio a meio.
tava meio sem grana. seria uma boa, mas ainda estou presa à algumas coisas, por uma questão de sobrevivência, mais do que tudo, então, resolvi ir pra casa. dormir e acordar cedo porque segunda-feira é dia de branco.
se fosse uma sexta, ou um sábado. ahhh, não pensaria duas vezes.
pirofágica - 5:00 PM
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